Técnicas

Nós e ancoragens. Segurança sempre!

nós

Os nós são indispensáveis para todas as atividades que envolvam trabalho em altura ou esportivas que precisem de cordas para diversas funções por exemplo:  Auto seguro, ancoragens, tirolesa, segurança de outra pessoa (segundo da cordada ), junção de cordas e manobras de resgate.

Com mais de 15 anos de experiência na área posso afirmar que os erros mais encontrados na pratica de esportes outdoor que precisam do auxílio de corda encontram-se nas ancoragens, não se trata somente de fazer um backup que está tudo bem, muitas vezes os praticantes fazem elas de maneiras muito complicadas o que facilita que erros aconteçam. É de grande valia para o total entendimento alguns conceitos da física, vamos a eles:

Ancoragem

A primeira premissa de uma boa ancoragem é de repartir as forças em no mínimo dois pontos, para isso temos que fazer um ângulo entre os dois pontos de ancoragem de maneira que nunca ultrapasse os  120 º pois qualquer ângulo maior que este estaremos aumentando os esforços nos pontos de ancoragens ao invés de diminuir, vide imagem abaixo.

Desvio

Utilizado para posicionar cordas fora de perigos verticais como cantos, barras metálicas, etc. Deve ter uma consideração um máximo de 2m do ponto de ancoragem ou outras técnicas devem ser aplicadas afim de proteger a corda. O Desvio não é um ponto de ancoragem em nenhum momento.

Oxidação dos pontos de ancoragens:

Mistura de materiais causa oxidação por exemplo parabolt de aço inox com chapeleta de aço carbono com tratamento de bicromatização (metais amarelos) ou zincados ( metais prateados )  ou vice e versa, causa uma oxidação eletrolítica. Porem vai demorar muito tempo para fragilizar o metal mas podendo usar tudo de inox ou titânio seria a melhor pedida porem mais cara. Mas este assunto será abordado exclusivamente em uma outra matéria.

CORROSÃO GALVÂNICA: Ocorre quando entram em contato dois metais com diferentes potenciais eletrolíticos. Tanto a formação de pares galvânicos como o aumento ou diminuição da corrosão vão depender da corrosão dos elementos na escala eletrolítica de potenciais de óxi-redução. Para eliminar os riscos deste tipo de corrosão, a superfície de contato dos aços deve ser isolada. O efeito do ataque também pode ser diminuído mantendo o contato entre uma grande superfície do metal nobre com uma superfície menor do metal menos nobre.

Nós

Para facilitar o entendimento neste artigo iremos separar os nós por uso porem todos seguem algumas premissas:

– Devem ser de fácil execução em todas as circunstâncias e condições.

– Devem poder ser desfeitos facilmente mesmo depois de colocado em tração ou com a corda molhada.

– Não podem soltar espontaneamente.

Para dominar o trabalho com nós é preciso conhecer perfeitamente sua execução e a correta aplicação é também necessário ter claro qual mecanismo de funcionamento o que só é possível treinando constantemente e efetuá-lo periodicamente para não esquecer.

Uma informação muito importante antes de entrarmos nos detalhes dos tipos de nós, é o cuidado para que eles não se desfaçam sozinhos quando submetidos a grandes trações. Para isso é imprescindível que a ponta seja deixada com pelo menos 10 vezes o diâmetro da corda, ou seja, estar usando um cordelete de 6mm. Após o nó, deve ter uma sobra de ao menos 6cm  ou 8cm no caso de cordelete de 8mm. Para ter uma margem de segurança deixe sempre 10 cm para cordeletes e 15 centimetros para cordas, com diâmetro maior que 10mm.

Também vale lembrar uma experiencia pessoal, que ao efetuar um curso de alpinismo na Itália, no dia de aula sobre nós e após ser passado todos os tipos de nós que iríamos usar, ouvi:

–  Agora iremos treiná-los de ponta cabeça, com uma mão e em outra pessoa!

As justificativas foram:

1º – De ponta cabeça pois pode ser preciso realiza-los após chegar em um platô na montanha olhando para baixo uma vez que a pessoa está posicionada acima de onde fará o nó também é o caso quando feito em nossa cintura olhando para baixo.

2º – Com uma mão, pois muitas vezes precisamos da outra para se segurar e também em muitas situações estaremos com luvas grossas onde existe neve e frio, o que muda muito a dinâmica de realizar o nó.

3º – E em outra pessoa porque podemos ter que efetuar o nó em algum companheiro.

Uso geral:

Nó em oito duplo:

Utilizado quando precisa de uma alça na ponta da corda.

Possui uma relativa facilidade em soltar mesmo após tracionado ou com a corda molhada.

Orelha de coelho:

O mesmo nó em oito duplo com uma volta da alça passando por todo o nó, serve para fazer duas alças separadas na corda o que é utilizado quando necessário realizar a ancoragem com a própria corda da via, pode ser inclusive equalizado controlando o tamanho das alças que podem ser diferentes uma da outra. Fácil de desfazer mesmo após tracionado ou com a corda molhada.

Borboleta:

Utilizado quando é preciso uma alça já na vertical e para isolar algum pedaço da corda ou qual esteja com sua integridade comprometida.

Ligação da corda com a cadeirinha ou para escaladas o qual os alpinistas precisam estar conectados ( em conserva ):

Os protocolos de segurança de alpinismo indicam para que esta ligação seja feito diretamente da corda com a cadeirinha, sem o auxílio de conectores ( mosquetões ) pois podem causar acidentes devido ser muito mais fácil cometer algum erro de procedimento ou ao se movimentar para escalar o mosquetão se soltar.

Lais de guia guiado ( tambem conhecido como Balso pelo Seio ou bulino na itália ):

Muito utilizado na Europa para diversos usos no alpinismo, fácil de ser feito pode ser usado tanto a ponta da corda como o meio para a conserva também pode ser usado para confeccionar um talabarte com fitas. Muito fácil de soltar mesmo após tracionado com diversas quedas ou com a corda molhada. Mais seguro que o Oito Guiado já que passam duas alças pela cadeirinha. Deve ser finalizado com um pescador na ponta que sobra.

Oito Guiado:

Um dos nós mais utilizados e normalmente o primeiro que se aprende, devem ser tomados alguns cuidados como não deixar sua alça muito grande e nem muito pequena.

Relativamente fácil desfaze-lo quando submetido a tração de quedas fica um pouco mais difícil. Tambem deve ser finalizado com um pescador na ponta que sobra.

Vale lembrar que estes nós devem passar pela parte alta da cadeirinha quando o alpinista estiver com mochila o que é pouco praticado no Brasil porem indicado em todas as literaturas devido a mudar drasticamente a cinemática da queda por conta do peso extra da mochila e podendo causar graves injurias para a coluna em uma queda se estiver somente com a cadeirinha baixa. ( ver artigo da cadeirinhas).

Nós para segurança

Volta do fiel:

 É o primeiro procedimento que deve ser feito ao chegar em uma parada, passar um mosquetão (deve ser da classe “H” ou HMS que é indicado para este fim) em uma das chapeletas e se prender com o fiel para depois montar a parada equalizada. Pode se manter sempre conectado a ele após a equalização, já que não precisa ser aberto o mosquetão para controlar seu comprimento. Também é muito utilizado em diversos procedimentos de resgate.

Nó UIAA, meia volta do fiel ou nó dinâmico:

Foi um dos primeiros nós utilizados no alpinismo e é muito utilizado ainda hoje. Na Europa é comum encontrar experientes alpinistas que só usam ele para dar segurança ao companheiro ou para efetuar a descida. Aqui no Brasil já percebi que algumas pessoas te olham torto quando você está utilizando para alguns fins, como dar segurança para o segundo por exemplo. É indicado que somente seja utilizado para esta função por pessoas bem experientes já que ao reter uma grande queda no fator 2, existe um escorrimento grande da corda e pode causar acidentes e ferir a mão ao bater no mosquetão. Somente deve ser feito em conectores da classe “H” e é preciso entender bem seu funcionamento, uma vez que a posição da corda é diferente para dar segurança e para efetuar descida, mas ele tende a se adaptar sozinho de acordo com o lado tracionado por isso é conhecido como dinâmico. Recomenda-se a prática a realizá-lo de ponta cabeça e com uma única mão. Fácil confecção, porém também é fácil errar e se colocar em risco.

Volta de bloqueio ou nó de mula:

 Utilizado para poder soltar as mãos da corda quando usado algum equipamento que não trave automático, por exemplo, utilizando o nó UIAA, ATC, Freio oito etc.

Requer uma atenção muito grande para realizá-lo corretamente e com uma sobra considerável para não causar acidente ao se soltar sozinho ou então após tracionado dificultar para soltá-lo.

Nós de junção de cordas ou fitas

Servem para unir cordas ou fitas!

Pescador e pescador duplo:

 O pescador dever ser utilizado para toda a ponta da corda afim de ser retido na mão do alpinista caso não perceba que a corda chegou ao fim. No caso do duplo é um dos mais utilizados para unir duas cordas do mesmo, porém após tracionado é difícil desfazê-lo.

Nó simples:

 Deve ser usado para unir cordas do mesmo diâmetro quando existe a necessidade de puxa-lo por algum obstáculo de maneira que a corda não trave.

Deve-se ter atenção de deixar uma sobra de pelo menos 10 vezes seu diâmetro para que quando tracionado não solte sozinho.

Nó de fita:

 É um nó simples com umas das pontas de maneira que passe pela outra ponta e depois repetido com a ponta que sobra. Muito fácil de fazer e também de soltar depois de tracionado. Recomenda-se finalizar as pontas com o pescador para não soltar acidentalmente quando tracionado.

Auto blocante

Recomenda-se utilizar cordelete de no mínimo 6mm com 60 cm de tamanho e que seja fabricado em Kevlar ou Dyneema. O tanto de voltas deve ser de acordo com a relação do diâmetro do cordelete ( usado com o prussik ) e o diâmetro da corda que irá recebê-lo, que deve ser de mais da metade do diâmetro da corda ou  2/3.

Prussik:           

Excelente nó para usar como auto seguro, em conjunto com descensores que não travem automáticos como oito, atc, etc. ou para efetuar a subida por uma corda, procedimento este que deve ser feito por pessoas experientes e utilizando no mínimo dois cordeletes com este nó na corda e de maneira que os dois estejam conectados a cadeirinha, o que ficar em cima deve possuir um pedal para auxiliar na subida. Pode ser utilizado nos dois sentidos.

Marchard:

É utilizado para as mesmas funções do Prussik porem deve ser tomado alguns cuidados e possuir um bom entendimento do seu funcionamento pois dependendo de como feito só funciona em um dos sentidos, não deve ser feito um número muito elevado de voltas, senão irá atrapalhar mais do que travar.

Autor: Alexandre De Meo Gazinhato ( Francês ) – Técnico em Segurança do Trabalho, jornalista, alpinista industrial IRATA, alpinista esportivo, membro do Clube Alpino Italiano, membro do Gruppo Speleologico  de Marche – Itália.

Sobre o Autor

Alexandre (Francês) De Meo Gazinhato

Alexandre (Francês) De Meo Gazinhato mora em São Paulo, é técnico em segurança do trabalho, jornalista, alpinista industrial IRATA, escalador esportivo, presidente do conselho da Pedra do Francês (batizada assim em sua homenagem) e membro do Clube Alpino Italiano e Gruppo Speleologico de Marche da Itália.

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